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O diretor de normalização da Opera, Charles McCathieNevile, ou apenas Chaals, conta os desafios da empresa e de seus navegadores: ´a preocupação e a missão da internet são padrões abertos´

SÃO PAULO – De um lado, um poderio instalado na Rússia e em alguns países vizinhos tenta se equilibrar; do outro, no ocidente, os rivais americanos continuam o processo de expansão.

O cenário pode parecer de uma Guerra Fria, mas a batalha é atual, estritamente mercadológica e não sai dos computadores. A chamada “briga dos browsers” reúne, hoje, quatro grandes forças que se digladiam na maioria dos países da parte oeste do globo – Internet Explorer, Mozilla Firefox, Google Chrome e Apple Safari – e outra isolada à leste, quase sempre esquecida em pesquisas, mas de grande relevância para o mundo da web: a Opera.

Com sede norueguesa e completando quinze anos de idade em 2010, a Opera Software cresce no mercado móvel mundial e detém o posto de líder de preferência em todas as categorias entre alguns países do leste europeu e da Ásia. Mas isso, para a competitividade atual, não é o suficiente.

A rentabilidade ainda relativamente baixa dos browsers móveis e o crescimento das empresas rivais em todos os setores da internet, como buscas e aplicações dominadas por Google e Microsoft, dão um tom emergencial para a necessidade de expansão da Opera. O atalho para isso, segundo seus comandantes, é chegar a mercados pouco ou não muito desenvolvidos e criar ferramentas compatíveis com as máquinas desses países.

Não à toa, a companhia trouxe ao Brasil um dos seus grandes representantes nesta semana, Charles McCathieNevile, ou apenas Chaals, diretor de normalização da Opera Software.

Confira suas opiniões no bate-papo abaixo:

Nos Estados Unidos e no Brasil, a versão desktop do Opera não tem tanto alcance, mas, na Rússia, lidera com folga em todas as plataformas. A que se deve esse sucesso?

CHAALS: Os russos sempre buscam o que querem, pois tem uma iniciação às tecnologias bastante técnica e um conhecimento muito acima da média mundial. Opera adaptou a estrutura básica e aproveitou o máximo possível. A Rússia foi um dos poucos países que aceitaram o Opera mesmo quando ele era pago, até meados de 2005, embora muitos usassem cracks, é verdade. Nos Estados Unidos e na Europa, foi uma desvantagem vender o browser, por isso, muitas pessoas escolheram outros. Ainda assim, depois que passamos a ser gratuitos, continuamos sendo o primeiro na Rússia, seguidos por Firefox. Na Ucrânia e Bielorússia, em outros países do Leste Europeu e alguns asiáticos, somos os primeiros também nos browsers para desktops. Vemos na Rússia, ainda, algo impressionante também na plataforma móvel: Opera Mini tem 5% do mercado total de browsers do país, incluindo desktops.

Uma pergunta clássica, talvez: como o Opera ganha dinheiro hoje?

Na verdade é uma forma diferente de se usar links patrocinados. Ganhamos dinheiro pelas buscas, redirecionando os usuários para aqueles endereços. Fomos o primeiro a fazer, agora Mozilla e outros navegadores fazem. Hoje temos como parceiros Google, Ask, Yahoo!, Yandex e Baidu.

Quais foram as mudanças de modelos de negócio ao longo do tempo?

O Opera passou por diferentes modelos de negócio em relação aos browsers de desktops. Inicialmente era pago, depois virou com banner e propaganda, até vir pro modelo atual grátis que tem receita por meio das buscas. Naquela época paga, os russos sabiam muito mais o que é um browser. Além desse conhecimento técnico deles, o Opera sempre focou em computadores e conexões de menor velocidade, que são característicos do país.

Na Europa, os novos sistemas operacionais da Microsoft já vêm com uma opção inicial para o usuário escolher qual será o navegador nativo. Isso é suficiente para tornar o mercado mais justo?

Isso surgiu na Europa depois que trabalhamos com uma comissão para lançar o processo judicial. Não é só um comportamento anti-competitivo da Microsoft, mas que afeta o mercado, tornando custoso aos desenvolvedores fazer um ‘site standard’, pois todos têm que fazer uma versão pensando no IE. O problema, por assim dizer, foram duas coisas: o comportamento em si e seu efeito no mercado. Vamos ver a partir de agora como será. O objetivo é deter um mercado mais amplo, visto que será mais importante fazer site com padrões. Abrir o mercado, ajudar os desenvolvedores, usar os padrões e construir uma web mais aberta para todos os navegadores será melhor para desenvolvimento da tecnologia em si.

Com que atrações o Opera pretende conquistar esse disputado mercado de browsers para desktops, contra Chrome, Firefox e IE?

Depende do usuário. De forma geral, é a velocidade, segurança a eficácia. Pessoalmente, eu gosto de destacar a participação dos widgets e as possibilidades de personalização do navegador, como a troca do fundo de tela do programa. Por outro lado, várias das extensões que outros navegadores incorporam por meio de aplicativos, o Opera já as possui integradas ao sistema, como as buscas customizadas automaticamente, por exemplo. Para completar, o Opera é o navegador que possui menor vulnerabilidade. E quando alguma aparece, nós somos os primeiros a corrigir.

O Google, de certa forma, ajuda o Opera dominando as buscas e anunciando um formato de vídeo aberto. Por outro lado, detém um navegador concorrente. Não é uma relação estranha?

É contraditória. Às vezes, somos parceiros e em outras concorrentes. Então é difícil analisar essa situação. Nós mesmos temos algumas restrições em passar certos tipos de informações para eles. Por outro lado, esperamos também que eles se abram um pouco mais. Todos dizem que a web é pública, porém as vias não são públicas, as redes internas, intranets etc. Isso é fato.

Com a chegada do HTML 5 e um possível boicote de empresas como Apple, o Flash morrerá?

Nossa preocupação e a missão da internet são padrões abertos. Falo de coisas que não tem uma empresa controlando, e isso é importante. Por isso que queremos ver HTML5, SVG e tecnologias abertas em ação. Mas a verdade é que Flash é importante e com distribuição bastante ampla. Hoje e amanhã também, pois temos um grupo de desenvolvedores que trabalham há muitos anos e conhecem ferramentas de Flash, então, penso que tem um futuro na web. O que Flash converte não é uma tecnologia aberta a fundo, como HTML 5 e outras. Mas ainda este ano em 2011, o Flash ainda viverá. Há coisas que são mais fáceis fazer agora em Flash.

Como você enxerga o futuro da web daqui a 5 anos?

Eu enxergo dois caminhos. Primeiro, o navegador vai passar a ser cada vez mais importante, devido ao crescimento dos serviços na nuvem. Por outro lado, os serviços offline e os widgets incorporados ao sistema operacional passarão a substituir softwares. Esses dois pontos tornarão a web bastante pessoal e vão permitir que a internet acompanhe a pessoa por toda parte da casa, no automóvel etc. Outro ponto que gosto de destacar é que estamos trocando nossa privacidade por serviços. Então vai chegar uma hora em que as pessoas irão questionar “Sr. Google, Sr. Facebook, por que tenho que lhe dizer tanto sobre mim para ter um serviço em troca?” Espero que nos próximos anos as pessoas desenvolvam uma compreensão melhor da tecnologia, tanto os usuários como desenvolvedores, a fim que elas sejam incorporadas ao nosso dia a dia de forma mais harmônica.

Fonte: Info/Abril